Trabalhar, estudar, ler, capinar? Como se constrói uma sociedade

     Nas últimas semanas vi pelas ruas da cidade umas cenas que me chamaram a atenção negativamente. Vi alguns ex-alunos meus, ainda em idade escolar, trabalhando, construindo muros, reformando edifícios.



    Por que acho isso algo negativo? Serei eu uma pessoa contra o trabalho e defensora da vagabundagem?

    Espero que ao final eu consiga deixar clara minha opinião e meu posicionamento.

    O Brasil é um dos países onde sua população é uma das que menos lê no mundo. É um país que teve suas primeiras escolas de ensino superior no século XIX e as primeiras universidades na virada para o século XX. Com o advento da escravização de seres humanos, a sociedade brasileira se forma através dos privilégios, onde certos grupos sociais tinham acesso a estudo, lazer e ociosidade, já outros grupos sociais faziam, literalmente, o trabalho sujo, pesado e que gerou as riquezas que esse Brasil desfrutou mesmo sem redistribuir coerentemente.

    Sobre o trabalho braçal e fundamental, existe uma interessante passagem. Quando o Barão de Mauá inaugurava a construção de um dos seus empreendimentos que modificaram a história do Brasil, a primeira estrada de ferro brasileira, com a presença ilustre do imperador D. Pedro II, o Barão resolveu dar a honra do pontapé inicial dos trabalhos para o imperador. Com uma pá com cabo feito com madeira de jacarandá e a pá feita de prata, o imperador fez o primeiro buraco. Essa cena inusitada foi tida como um insulto pelo imperador, pois qualquer trabalho que gerasse esforço físico, na época (século XIX), era considerada degradante, coisa de gente inferior. E o imperador ficou furioso, tratando o Barão de Mauá como seu inimigo, construindo uma estrada de ferro paralela à do empreendedor, só para lhe prejudicar. Aí já temos noção de como nosso país gosta de patinar...

    Essa mentalidade referente ao trabalho não mudou muito, basta vermos as condições e os tratos que a sociedade tem com trabalhadores como catadores de lixo, garis, trabalhadores das indústrias, que colhem nas lavouras de maçã, cebola e afins e trabalham por temporada. Os cortadores de cana, que até pouco tempo eram chamados de bóia fria e que são ainda submetidos a trabalhos análogos à escravidão. São salários irrisórios, condições irrisórias e vidas maculadas. Lazer, leitura, cultura? Quando?

    Todos os tipos de trabalho são importantes, fundamentais e dão suas contribuições para o funcionamento da sociedade. Esse escalonamento, valorizando mais uns e outros, são consequências da divisão de classes e do pensamento capitalista, que necessita dessas hierarquias para manter uma boa parcela da sociedade em condições que as obriguem a se submeterem aos trabalhos que a parte mais abastada não se submeterá jamais, e isso vai de casos extremos como cortar cana, até às empregadas domésticas. (Sobre essas relações, tratarei em um outro texto).

    Mas por que falar disso? Estou dizendo que meus ex-alunos estão sendo escravizados ou algo do tipo? Obviamente que não é isso e está longe de ser. O fato desses seres humaninhos, ainda em idade escolar, estarem trabalhando, escancara as desigualdades que nosso país possui e o quanto estamos longe de superarmos isso e sermos um país melhor. Imagina: enquanto esses adolescentes, estudantes de escola pública e de famílias humildes estão trabalhando, onde estão os adolescentes de famílias mais abastadas? Será que isso influencia em alguma coisa nesse jogo chamado vida?



    Crianças e adolescentes precisam estudar e completar suas vidas escolares por completo, todas elas. É normal ouvirmos ou lermos que trabalhando é que se percebe a importância do dinheiro e se forma caráter/responsabilidade. Será? 

    Eu sou defensor de uma escola pública com ensino em tempo integral, com disponibilidade de café da manhã, almoço e lanche da tarde gratuitos nas escolas, com ensino regular e técnico, com oficinas culturais. Defendo que lugar de criança e adolescente é na escola e não trabalhando para complementar a renda da família, algo tão antigo e defasado (mas muito real e presente).

    Porém, para garantir que as crianças e adolescentes tenham a possibilidade de estarem na escola integralmente, é preciso que as famílias recebam algum suporte. Por isso, defendo também que o governo pague uma bolsa educação para as famílias por cada criança matriculada, garantido frequência, acompanhamento de saúde e bom rendimento. O Brasil, um país tão dependente de tudo, que vive há 521 anos exportando matéria prima, exportando grãos e comprando tecnologia, precisa dar uma guinada nessa situação e isso só será possível com investimentos pesados em educação, ciência e tecnologia.

    Dando aos estudantes da escola pública melhores condições e oportunidades, a sociedade como um todo ganha e cresce. Para isso, precisamos tirar do senso comum que a intelectualidade é ruim, que ler, estudar é coisa de fraco e que só ocupa bem o tempo quem "carpe um lote", senta tijolo. E veja bem: carpir um lote ou construir uma casa são trabalhos sensacionais e fundamentais. As pessoas que fazem isso são importantíssimas e necessárias, e deveriam ser muito melhor remuneradas e mais bem vistas por todos. Agora, o professor, o pesquisador, o cientistas, o escritor, entre outros, que trabalham com estudo, pesquisa e leitura também são necessários, fundamentais e deveriam ser melhores remunerados e mais bem vistos.

    Dito isso, devemos parar de romantizar crianças e adolescentes fora da sala de aula ou dividindo esse tempo com o trabalho, pois isso diminuiu o afinco e a qualidade do estudo, invariavelmente, e qualquer exceção que você trouxer apenas irá confirmar a regra, não o contrário. Devemos começar a romantizar o estudo, a leitura, a pesquisa e acreditar que a saída está aí: no investimento na educação e não em tetos de gastos ou na falácia da austeridade. Ou investe ou não muda. Se há dinheiro para gastos supérfluos como leite condensado, deveria haver para a educação.

    Por isso devemos incentivar que sejam criados programas escolares e de distribuição de renda que mantenham nossas crianças e adolescentes nas escolas, para que possamos construir um futuro muito melhor, rico e valoroso, independente e longe das amarras que nos mantém no ostracismo e no atraso.

    Às crianças e adolescentes fica uma mensagem: na educação, na escola, você encontrará mais saídas e maiores condições de uma vida melhor do que fora dela. Não troque o futuro por uma tentação falsa de conseguir as coisas com seu próprio dinheirinho. Tudo tem seu tempo e nada é para ontem. Acredite na educação!



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