Semana Farroupilha: tão comemorando o quê?

     Todo dia 20 de Setembro é a mesma história. Várias cidades fazendo feriado e homenagens à Semana Farroupilha. Alguns acampam por dias, pilchados, com churrasco de fogo de chão, chimarrão. Não pode faltar a guaiaca cheia e uma guampa de canha bagual.



    O que intriga nessa história é justamente a história. A semana farroupilha comemora a Revolução Farroupilha, iniciada em 20 de setembro de 1835. Uma revolução que durou 10 anos, e que os revoltosos farroupilhas perderam o conflito. Se rebelaram contra o império brasileiro, proclamaram a independência e foram rendidos pelas tropas imperiais, assinando o tratado do Ponche Verde e encerrando a revolta. Se perderam a revolução, comemoram por quê?

    Dizem alguns que comemoram a iniciativa e a bravura dos gaúchos, que se colocaram contra as injustiças do império brasileiro em relação aos impostos cobrados sobre o charque à época e que se assemelham à questão tributária atual. Isso é digno de reconhecimento e a causa até que era justa, mas quem comemora conhece mesmo toda a história e o desenrolar dos fatos, ou comemora pelo hype apenas?

    Os revoltosos sulistas perderam e se entregaram no final dos 10 anos de conflito. Os líderes da revolução, como o escravagista Bento Gonçalves, fizeram acordo com o poder imperial do Brasil, livrando suas vidas às custas de milhares de vidas inocentes. Sendo assim, quando começaram a comemorar isso, então?

    Isso começou a acontecer mesmo no centenário da revolução, lá em 1935. O presidente do Brasil à época era o rio-grandense Getúlio Vargas, que financiou junto ao governo do Rio Grande do Sul a fabulação da história da Revolução, colocando o fato como heroico, criando assim toda a lenda que permeia tal acontecimento. Você sabia?

    E sabe outro fato interessante sobre esse tema? Sabe os atributos que elenquei no primeiro parágrafo? Todos eles são de origem indígena. A vestimenta, o churrasco, o chimarrão, os acessórios, tudo é indígena. Indígenas como os Charrua e os Minuano, nações que foram dizimadas pelos espanhóis e portugueses na época colonial, mas que vivem hoje na pele desses que orgulhosamente batem no peito para comemorar uma revolução perdida e uma identidade totalmente construída e surrupiada. 

    Há algo de errado nisso? Depende. Se você entende que o que você está comemorando é uma derrota, tudo bem. Se você entende que essa tradição que você imagina, que essa figura que você chama de gaúcho é algo construído e roubado de nações indígenas que foram dizimadas, e que até hoje muitos que comemoram essa data e usam dessas tradições ainda defendem o extermínio de outros povos indígenas que resistem aos ataques que sofrem diariamente, aí fica a seu critério e à sua livre consciência.

    Sirva um chimarrão para matar a sede da "tradição" e aha hui aha há!

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